quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Zen e a Arte do tiro com arco

Este ainda não se tornou um blog sobre literatura, mas também não é um blog sobre desporto.  Este é um blog sobre o quê?

Já há algum tempo que namorava este livro. Talvez fosse o título: à partida enigmático. Talvez fosse a minha curiosidade mística, transcendental ou religiosa não assumida. Ou então, apenas porque tinha um tamanho bom e não era muito espesso: não corria o risco de me vazar um olho, enquanto pendesse hesitantemente à minha frente na cama. Como tenho mais livros do que tempo para os ler, a sua compra foi sucessivamente adiada até que um cheque livro o veio resgatar à opróbrio de ser vendido em promoção numa qualquer feira de oportunidade.

É um daqueles livros que pode interessar a diferentes pessoas por diferentes motivos.

Narra a experiência de um professor de filosofia alemão (o próprio autor) enquanto aluno de um conceituado mestre Zen na arte do tiro com arco. Esta arte do tiro com arco não têm, no Japão, qualquer propósito desportivo, utilitário ou sequer estético. Trata-se de um exercício da consciência, exercício de contacto com o inconsciente, de abolição do ego. A técnica torna-se tão intrínseca que deixa de ser pensada, passando simplesmente a acontecer.

Não vou aqui fazer um resumo do livro (que por si já é razoavelmente conciso), mas apenas explicar o seu interesse.

É interessante pela sua forma. Trata-se de um relato na primeira pessoa acerca sua experiência e dificuldades enquanto aluno, durante 6 anos, na arte de tiro com arco. Nada de muito original, por certo. Mas é marcado por um tal concentração e um tal despojamento, que foge ao corriqueiro, e elimina todas as distracções, que se torna muito eficaz. E belo porque se percebe a intencionalidade. Desde logo reconhece também, com extrema lucidez, as suas limitações: "Quem não não participe de experiências místicas permanecerá, por mais que faça, sempre do lado de fora. Esta condição, à qual obedece toda a mística genuína não admite excepções"; a vivência Zen, ou qualquer outra vivência de carácter místico, não pode ser transmitida por uma série de frase circulares, redondas, paradoxais, quase niilistas. E também não pode ser por conta deste relato.

É interessante com o são todos as experiências de encontro de culturas diferentes. Aqui especialmente no que se refere ao ensino e aprendizagem. Concepções bastante diferentes separam Ocidente e Oriente neste aspecto. Repetição, repetição, exemplo, imitação, confiança. A relação aluno/mestre apresenta contornos difíceis de perceber no mundo ocidental, especialmente no que diz respeito à confiança cega devotada pelo aluno, que não questiona e tudo aceita. Mas também pela sabedoria do mestre que escolhe deixa o aluno errar, deliberadamente, abdicando de lhe indicar imediatamente o caminho certo, para que mais tarde a razão dos seus ensinamentos se torne evidente.

É interessante pelas curtas mas preciosas pérolas de sabedoria oriental. Um exemplo:
«Bom, parece-me que o mais difícil já passou» - disse eu um dia ao mestre, quando ele nos anunciava que iríamos começar com novo exercícios. «Aqui temos o costume de aconselhar a quem tem de caminhar cem milhas, que considere as noventa como sendo a metade - respondeu ele. Mas o objectivo desta nova etapa é o atirar ao alvo.»

E na corrida? Ou na caminhada? No ciclismo? Também há momentos zen?

Para mim, caminhar ou correr têm a grande virtude de me esvaziar a cabeça. Os movimentos repetitivos, a respiração hipnótica, o som ritmado dos sapatos no chão, provocam (num bom dia) uma dormência de espírito equivalente a dois xanax e um prozac (não sei do que estou a falar porque nunca experimentei). 

Há momentos em que me dedico a observar o corpo: aparece um dorzinha aqui, depois ali, e desaparece; a respiração; o coração. Ou a sentir o frio e o vento e a chuva ou o sol. Não tenho por exemplo o hábito de ouvir música, o que para além de perigoso, me parece contraproducente. Detesto encontrar pessoas conhecidas e prefiro a noite, porque de um modo geral há menos movimento. 
E há outros momentos em que nos esquecemos sequer de que estamos a correr (sem querer comecei a escrever na segunda pessoa do plural), em que o corpo segue em frente de forma completamente automática, em que o próprio esforço deixa de ser percebido, e a mente vagueia para outro lugar ou para lugar nenhum e damos por nós, como que teleportados, no fim do percurso. Algo de muito primário entra em funcionamento. Há uma suspensão do tempo. Sentimos-nos aconchegados - quase não nos sentimos, na medida em que a nossa auto-percepção diminui até um mínimo residual, e a nossa consciência enquanto entidade, enquanto oposição ao mundo e aos outros não existe; não pensamos.

1 comentário:

  1. Gostei da descrição das sensações que lhe traz a corrida.

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