quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Running Through the Wall

Livro repleto de pequenas histórias (que ao fim e ao cabo são todas a mesma) de pessoas que correram ultra-maratonas. A grande maioria são atletas do pelotão ou mesmo do fim do pelotão.

Uma frase que achei engraçada e que resume o sentimento e a mística que tece estas histórias:
"Going for a run always clears my head, but running 100 miles distills my soul.", Keith Knipling

domingo, 19 de dezembro de 2010

Antes... e depois.

Antes (2 de Agosto 2009, 108kg):

Depois (5 de Dezembro de 2010 - final de maratona de Lx, 76kg):


Seria porreiro poder anunciar que há um produto milagroso que transforma homens obesos de meia-idade em maratonistas - não há. Mas também não é preciso. Ficam informados que é possível fazê-lo em 16 meses ou menos - mais rápido do que o período de gestação de um elefante. E não, não tenho nenhum talento especial para estas andanças - já o teria notado por esta altura.

Devo contudo agradecer a todos os que me ajudaram ou inspiraram. E formam muitos...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Maratona de Lisboa 2010 - A história completa (3/3)

recuperação
Imediatamente a seguir à maratona senti-me bastante estourado - ao contrário do Pena, que parecia capaz de correr +10km! Mas depois de um almoço e lanche reforçados comecei a arribar. Nos dois dias seguintes mantiveram-se alguma dores musculares e na quarta-feira já estava com vontade de correr!
O dedo do pé manteve-se inchado (e ainda não está bom) e fiquei a parte exterior do pé bastante dorida - em resultado de tentar proteger o dedo durante a prova. Enfim... mazelas de corredor. Sendo que correr uma maratona com o pé neste estado deve ter sido das coisas menos racionais que fiz nas últimas décadas.
Dei mais uns dias para descanso mental, mas no sábado já não aguentava mais!

next
Treinar, treinar, treinar. Ainda tenho bastante por onde melhorar. Endurance e força.

2011
Quero definitivamente experimentar algumas provas de trail - o que deverá acontecer na primeira metade do ano. Isto também porque não me apetece ir para fora de Portugal para correr uma maratona na Primavera (alguém me explica porque é que temos 3 maratonas em Portugal no Outono?).
Para a segunda metade do ano, uma maratona. Talvez a do Porto, senão a de Lisboa.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Maratona de Lisboa 2010 - A história completa (2/3)

pacing 
Esta é a mais difícil de todas as artes na corrida de longa distância; especialmente na maratona. Visto em perspectiva penso que talvez me devesse ter poupado um pouco mais na primeira metade da prova. Segui num ritmo confortável, o habitual nos meus treinos longos mais puxados, mas a diferença estava no vento.


meteorologia
Ameaçava ser um dia épico: possibilidade de trovoada, chuva, vento. Deste trio restou-nos os vento e a humidade. Mas foi o que bastou para tornar a prova bastante difícil. O vento parecia estar sempre contra e na marginal então, sendo lateral, era terrível. Só quem corria em grupo alargado (caso do grupo que se constituiu em volta do pacer das 3:30) é que tinha hipótese; sozinho a vida era difícil, mas havia mais do que pequeno grupos de 2/3 pessoas.

maratona
O primeiro km foi para aquecer: 5:30. Depois, e até à meia-maratona, segui sempre entre os 4:50 e os 5:00. Como partimos de trás fomos paulatinamente passando outros atletas. Mas nunca mais vimos o pacer das 3:30, que deveria ir preocupado com a subida final da Almirante Reis. Se o tivesse alcançado antes da marginal talvez o resultado fosse diferente...
           tempo     média
  5km: 0:25:43 - 5:06/km
10km: 0:50:03 - 5:00/km
15km: 1:13:36 - 4:54/km
20km: 1:37:47 - 4:53/km

Por volta dos 15km o Nuno (meu colega de trabalho) aproveitou a subida para o alto do parque para "fugir" de nós. Ainda pensei que o voltássemos a apanhar na descida para a baixa, mas não. Desci rápido e o Pena ficou uns metros para trás, mas não muito.
Assim que entrámos na marginal a situação complicou-se. Percebi que já não conseguia andar abaixo dos 5:00/km. Fui sempre controlando o esforço, mas o vento não dava tréguas. Tive que me adaptar ao ritmo de um jovem alto e magro e fomos revezando-nos, mas sem grande sucesso... nessa altura o pelotão estava completamente disperso.
  
 25km: 2:03:04 - 4:55/km
 30km: 2:28:20 - 4:56/km
 35km: 2:54:11 - 4:58/km


Por volta dos 25km tive o primeiro sinal de cãibra. Apenas um pequeno aviso - mas calculei logo que o final iria ser complicado. Lá fomos até Algés... A viragem é sempre importante do ponto de vista psicológico. Mas a partir dos 30 os kms foram-me parecendo cada vez mais longos. Nunca mais chegávamos à ponte e lá chegámos; nunca mais chegávamos ao Cais Sodré, mas lá chegámos.
Uns metros antes do ponto de apoio senti novamente as iminência das cãibras; mas desta vez tão forte que abrandei mesmo. Apanhei a água e parei de seguida (muita gente parada neste ponto), procurando um sítio onde esticar-me. O Pena parou também. Falámos - não, não estava a pensar em desistir. 30 segundos depois lá seguimos. Custou-me um bocado a retomar. Sentia os movimentos tolhidos; a passada encolhera e quanto mais tentava controlar, para evitar as cãibras, mais tenso corria. Quando chegámos à Praça do Comércio o Pena meteu a quinta e deixou-me pregado ao chão! Objectivo: terminar.
Segui lentamente mas com passo certo até aos Restauradores. Comecei a subir a Almirante Reis. Primeiro correndo. Depois andando. Correndo. Andando. Se tivesse forçado, talvez conseguisse um tempo por volta das 3:40; mas também podia ser que ficasse por ali estendido agarrado a uma perna. Desta vez o disjuntor do sofrimento disparou (ao contrário da meia-maratona de portugal) e pensei: era bom que amanhã conseguisse ir trabalhar - de pé. Demorei 38 minutos a percorrer os últimos 5km.
Voltei a correr depois do último abastecimento. Ainda fiz um sprint final na pista para garantir que ficava abaixo das 3:50. Fim.

nutrição e hidratação
Nos dias que antecederam a maratona não tive uma alimentação muito cuidada. Mas a partir de sábado à tarde voltei a atinar. Cuidado com a hidratação e dose extra de hidratos de carbono.
Durante a prova segui exactamente o que planeara. 6 gels (um bocadinho bruto) e água em todas as estações. O primeiro foi logo consumido 5 minutos antes da partida. Os outros sensivelmente de 7 em 7 km. Ou seja: 7, 15, 23, 30 e 37 kms.
Não senti propriamente falta de energia - penso que essa não foi a razão principal da quebra final - mas talvez para a quantidade de gel que ingeri, a água fosse insuficiente - beberia mais se tivesse oportunidade.

cãibras
Falha muscular - lembro-me de ter pensado nisto durante a subida da Almirante Reis. Falha muscular. Não foi propriamente a parede, embora ela estivesse lá. Não senti propriamente falta de energia. O sistema cardio-vascular ainda respondia. Mas não os músculos. Espasmos constantes. Qual a causa? Será que poderia ter feito alguma coisa para as evitar?
Não é frequente ter cãibras. Lembro-me que tive os mesmo sintomas num treino longo logo a seguir à meia-maratona, mas não mais. Talvez alguma suplementação com magnésio possa ajudar... mas não sendo um situação crónica, talvez não seja essa a causa.
Depois de pensar no assunto acho que as causas foram mais circunstanciais:
- acumulação de ácido lático, pois fui demasiado perto do limite durante toda a prova, com o vento e o sobe e desce a cobrarem a sua factura no final.
- ajudada por uma ligeira desidratação - bebi antes de começar a prova e em todos os ponto de apoio (o que deve ter dado cerca de 3L), mas é certo que em algumas alturas, especialmente mais para o final, senti sede... Os gels sugam grande parte da água para a digestão.

(continua)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Maratona de Lisboa 2010 - A história completa (1/3)

a queda
Na quarta-feira à noite, depois da minha queda, ainda acreditava que com muito gelo e fé o pé iria melhorar até Domingo, dia de maratona. Não estava partido. Não poderia ser assim tão mau. Uma queda tão estúpida que nem percebi bem como é que aleijei o pé - a única explicação foi a biqueirada no chão.
Não foi esse exactamente o diagnóstico do médico:
- Quanto tempo demora até passar Dr.?
- 5 dias.
- Então e se por exemplo eu estivesse a pensar fazer uma corrida no Domingo?
- De preferência uma maratona - isto ele não disse, mas teria a sua piada...
A facto é que quando chegou a quinta à noite e ainda estava pior (o que é natural) comecei a convencer-me de que não iria... Sexta-feira trouxe algumas melhoras, mas pouco significativas. E eu já tinha desligado. Não iria fazer a maratona. Não era assim que eu queria fazer a minha primeira maratona. E era estúpido estar a arriscar aleijar-me seriamente apenas por um capricho de calendário.
Deixei de me preocupar com a alimentação, meteorologia, equipamento. Não iria. E assim disse a quem me perguntou.

o dia antes
Tinha contudo de levantar os dorsais (o meu e o do Pena). Estava um frio do caraças e ameaçava chover. Como sempre - infelizmente - ia com pressa; aproveitava a sesta da criançada para tratar do assunto... Levantados os dorsais, meia volta na feira que me pareceu tristonha, e saí novamente para a rua. Estava a começar a chover... e chuva era mesmo fria. Senti a tentação de correr e corri. E fiquei espantado por não me ter doído demasiado.
Inversão completa: como poderia eu não tentar correr a maratona quando havia a possibilidade de o conseguir? Se tivesse dores desistiria, mas não podia ficar em casa com tanta gente a correr pelas ruas de Lisboa. Quatro meses de treino mereciam pelo menos uma tentativa...
Comi um jantar reforçado: (muitas) batatas com bacalhau e grão. Preparei o equipamento. Há última hora ainda não sabia muito bem onde levar o gels.

o dia
Dormi muito mal. Choveu toda a noite e estava bastante ansioso.
Sete da manhã, pequeno almoço: pão com mel, marmelada, banana. Chegamos sem problemas ao local de partida. Ia junto com o Pena e encontrei depois o Nuno, um colega de trabalho que também se ia aventurar na sua segunda maratona - após um interregno de alguns anos. Sacos entregues. Alguma confusão à procura do local de partida.
Plano: ponto de situação com o meu pé aos 5km; por essa altura já deveria conseguir perceber se tudo iria correr bem. Tinha pensado levar dinheiro para o taxi... mas esqueci-me. Ritmo: o inicialmente combinado era entre os 4:50 e os 5:00/km, mas para mim acabar seria de qualquer forma uma vitória.

(continua...)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Treino mais difícil de sempre...

Maratona de Lisboa 2010. Fui, corri, andei, solucei e terminei.

Numa decisão de última hora resolvi ir à maratona, isto apesar de o dedo do pé estar negro. Quando fui, no Sábado, buscar os dorsais experimentei a correr e não me doeu demasiado. Por isso fui à experiência. Se não resultasse ficava aos 5kms... mas não fiquei, e terminei - o que sempre foi o meu principal objectivo.

O tempo não foi famoso, mas antes que a Almirante Reis acabasse comigo... achei que o melhor era chegar devagar, em vez ficar sentado no passeio agarrado às pernas com as caimbras que a todo o momento ameaçavam. Acabei com 3:48:44. A maratona é bem mais difícil do que imaginava. Os últimos 5/7km fazem toda a diferença. O meu tempo alvo era 3:30. O pé não me atrapalhou demasiado - pelo menos não directamente -, doía devagarinho. O pior foram mesmo as ameaças de caimbra e uma dor que se instalou na anca - é claro que isto pode estar associado ao facto de estar a correr demasiado tenso, tentando proteger o pé...

Até à meia-maratona fui muito bem: 5km(:25), 10km(:50), 15km(1:13), 21km(1:42). Aos 24km comecei a sentir os primeiros espasmos musculares. O vento desgastou-me demasiado durante toda a prova. Por essa altura disse ao Pena, que me acompanhou desde o início até ao km 36, que o final ia ser difícil. Ainda assim, reduzindo ligeiramente o ritmo, lá fomos até aos 35km, altura em que tive que parar e alongar. Segui lentamente até aos Restauradores (37km) - já sem o Pena que disse: "Isto é para acabar, carago!". A subir a Almirante Reis percebi que não tinha qualquer hipótese de me aproximar das 3:30 e por isso desliguei. E andei. Andei. Corri. Andei. E não era o único - quase toda a gente ia a passo de caracol ou a andar.
Demorei 38 minutos a fazer os últimos 5km.

Ao cruzar a Av. Estados Unidos da América, voltei a correr e daí até ao final. Percebi que já nada poderia acontecer e iria terminar. E chorei. Tecnicamente, pode-se dizer foram uma sucessão de soluços. Pensei nas minhas filhas, no meu pai... em muita coisa.

Apesar do sofrimento final a maratona é, de longe, a prova que mais prazer me deu até agora. Porque é feita ao ritmo que eu mais gosto - aquele confortavelmente difícil.

Quando puderem, corram uma maratona.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Pé ao alto, gelo

A vida é uma sucessão de episódios estúpidos. Uns mais do que outros. Na minha vida, mais do que na dos outros. Este que agora passo a descrever ficará sem dúvida bem classificado do ranking da estupidez.

Quarta-feira à tarde. Saí para uma pequena corrida. Ritmo moderado. Ar frio. Sol tímido, mas reconfortante. O dia estava tão agradável e correr é tão bom, pois é. Vou aqui rente ao rio onde nunca passo durante a noite porque é pouco iluminado e o piso tão irregular - boa ideia. Ia eu tranquilamente a pensar como me sentia deprimido desta semana ter planeado correr só 30 e tal kms e em como duas semanas de descanso para a maratona se calhar era um exagero. A correr bem, em bom ritmo. Deixa cá olhar para o relógio... F.d.-s. Quando dei por mim estava estatelado ao comprido. Olha que estupidez. E aleijei-me mesmo. Já estás.

Luvas rotas, mãos e joelhos esfolados. Mas o pior, percebi uns minutos depois enquanto me arrastava até a casa, foi a tremenda biqueirada que mandei num ressalto ou saliência do chão. Esse sim foi o problema. Dedo grande inchado, com muita dificuldade em mover, e não consigo apoiar convenientemente o pé. Não está partido - não me pareceu, mas em vez de ficar a encornar nisso decidi tirar logo as dúvidas com um raio-x - mas também não está nada bom. Pelo menos não para correr 42km. Ainda tenho alguma esperança de recuperar a tempo, mas não muita.

Interiormente já aceitei que não vou. Custa-me muito, mas não vou. Outras oportunidades haverá. E cada vez me desgosta mais a vertente de participação em provas. O meu rácio de desastres (antes e depois) é impressionante. Talvez seja melhor ficar-me pelos treinos. Hei-de correr uma maratona - nem que seja sozinho.

Na filosofia do metatarso o importante é o caminho e esse foi percorrido. Faltavam dois treinos e a maratona.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Medo?

"I run to see who has the most guts." 
Steve Prefontaine 


"Long distance running is among the most painful and scariest sports that we have come up with, and a runner must be brave in the purest sense to succeed in it."
Matt Fitzgerald, "Run"


A primeira é uma muito famosa citação de Steve Prefontaine; a segunda, não será assim tão famosa, mas lia recentemente num livro (mais um) da autoria e Matt Fitzgerald. Antes de a ler, acho não tinha percebido realmente a primeira. E não tinha percebido também o que era aquela ansiedade miudinha que se infiltrava mansinho antes de uma prova importante (para mim são todas, mas poucas - o que é estúpido) ou de um treino difícil, daqueles mesmo violentos, em que queremos ir mais rápido ou mais longe do que alguma vez fomos. E sabemos (ou desconfiamos) que vai doer; não sabemos bem quanto, porque este momentos depressa se esquecem ou transformam, ou porque nunca estivemos nesse lugar...


É o medo. Medo? Sim, medo. Temos medo. Outra vez: medo. 


É natural. É inteligente. É uma escolha. É preciso aceitar ou não este medo. E para fazê-lo com toda a convicção, é preciso confiança, é preciso acreditar de que somos capazes, e é preciso um bocadinho de coragem - seja lá o que isso for. 


E não, não somos estúpidos. Não queremos sofrer. Queremos ser corajosos. Queremos viver.