domingo, 12 de dezembro de 2010

Maratona de Lisboa 2010 - A história completa (2/3)

pacing 
Esta é a mais difícil de todas as artes na corrida de longa distância; especialmente na maratona. Visto em perspectiva penso que talvez me devesse ter poupado um pouco mais na primeira metade da prova. Segui num ritmo confortável, o habitual nos meus treinos longos mais puxados, mas a diferença estava no vento.


meteorologia
Ameaçava ser um dia épico: possibilidade de trovoada, chuva, vento. Deste trio restou-nos os vento e a humidade. Mas foi o que bastou para tornar a prova bastante difícil. O vento parecia estar sempre contra e na marginal então, sendo lateral, era terrível. Só quem corria em grupo alargado (caso do grupo que se constituiu em volta do pacer das 3:30) é que tinha hipótese; sozinho a vida era difícil, mas havia mais do que pequeno grupos de 2/3 pessoas.

maratona
O primeiro km foi para aquecer: 5:30. Depois, e até à meia-maratona, segui sempre entre os 4:50 e os 5:00. Como partimos de trás fomos paulatinamente passando outros atletas. Mas nunca mais vimos o pacer das 3:30, que deveria ir preocupado com a subida final da Almirante Reis. Se o tivesse alcançado antes da marginal talvez o resultado fosse diferente...
           tempo     média
  5km: 0:25:43 - 5:06/km
10km: 0:50:03 - 5:00/km
15km: 1:13:36 - 4:54/km
20km: 1:37:47 - 4:53/km

Por volta dos 15km o Nuno (meu colega de trabalho) aproveitou a subida para o alto do parque para "fugir" de nós. Ainda pensei que o voltássemos a apanhar na descida para a baixa, mas não. Desci rápido e o Pena ficou uns metros para trás, mas não muito.
Assim que entrámos na marginal a situação complicou-se. Percebi que já não conseguia andar abaixo dos 5:00/km. Fui sempre controlando o esforço, mas o vento não dava tréguas. Tive que me adaptar ao ritmo de um jovem alto e magro e fomos revezando-nos, mas sem grande sucesso... nessa altura o pelotão estava completamente disperso.
  
 25km: 2:03:04 - 4:55/km
 30km: 2:28:20 - 4:56/km
 35km: 2:54:11 - 4:58/km


Por volta dos 25km tive o primeiro sinal de cãibra. Apenas um pequeno aviso - mas calculei logo que o final iria ser complicado. Lá fomos até Algés... A viragem é sempre importante do ponto de vista psicológico. Mas a partir dos 30 os kms foram-me parecendo cada vez mais longos. Nunca mais chegávamos à ponte e lá chegámos; nunca mais chegávamos ao Cais Sodré, mas lá chegámos.
Uns metros antes do ponto de apoio senti novamente as iminência das cãibras; mas desta vez tão forte que abrandei mesmo. Apanhei a água e parei de seguida (muita gente parada neste ponto), procurando um sítio onde esticar-me. O Pena parou também. Falámos - não, não estava a pensar em desistir. 30 segundos depois lá seguimos. Custou-me um bocado a retomar. Sentia os movimentos tolhidos; a passada encolhera e quanto mais tentava controlar, para evitar as cãibras, mais tenso corria. Quando chegámos à Praça do Comércio o Pena meteu a quinta e deixou-me pregado ao chão! Objectivo: terminar.
Segui lentamente mas com passo certo até aos Restauradores. Comecei a subir a Almirante Reis. Primeiro correndo. Depois andando. Correndo. Andando. Se tivesse forçado, talvez conseguisse um tempo por volta das 3:40; mas também podia ser que ficasse por ali estendido agarrado a uma perna. Desta vez o disjuntor do sofrimento disparou (ao contrário da meia-maratona de portugal) e pensei: era bom que amanhã conseguisse ir trabalhar - de pé. Demorei 38 minutos a percorrer os últimos 5km.
Voltei a correr depois do último abastecimento. Ainda fiz um sprint final na pista para garantir que ficava abaixo das 3:50. Fim.

nutrição e hidratação
Nos dias que antecederam a maratona não tive uma alimentação muito cuidada. Mas a partir de sábado à tarde voltei a atinar. Cuidado com a hidratação e dose extra de hidratos de carbono.
Durante a prova segui exactamente o que planeara. 6 gels (um bocadinho bruto) e água em todas as estações. O primeiro foi logo consumido 5 minutos antes da partida. Os outros sensivelmente de 7 em 7 km. Ou seja: 7, 15, 23, 30 e 37 kms.
Não senti propriamente falta de energia - penso que essa não foi a razão principal da quebra final - mas talvez para a quantidade de gel que ingeri, a água fosse insuficiente - beberia mais se tivesse oportunidade.

cãibras
Falha muscular - lembro-me de ter pensado nisto durante a subida da Almirante Reis. Falha muscular. Não foi propriamente a parede, embora ela estivesse lá. Não senti propriamente falta de energia. O sistema cardio-vascular ainda respondia. Mas não os músculos. Espasmos constantes. Qual a causa? Será que poderia ter feito alguma coisa para as evitar?
Não é frequente ter cãibras. Lembro-me que tive os mesmo sintomas num treino longo logo a seguir à meia-maratona, mas não mais. Talvez alguma suplementação com magnésio possa ajudar... mas não sendo um situação crónica, talvez não seja essa a causa.
Depois de pensar no assunto acho que as causas foram mais circunstanciais:
- acumulação de ácido lático, pois fui demasiado perto do limite durante toda a prova, com o vento e o sobe e desce a cobrarem a sua factura no final.
- ajudada por uma ligeira desidratação - bebi antes de começar a prova e em todos os ponto de apoio (o que deve ter dado cerca de 3L), mas é certo que em algumas alturas, especialmente mais para o final, senti sede... Os gels sugam grande parte da água para a digestão.

(continua)

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