sábado, 3 de novembro de 2012

A minha 4ª

Se, há uns anos atrás, alguém me dissesse que iria correr várias maratonas... diria que... ok... diz-me o que é que estás a tomar; deve estar a bater forte. Pois, cá está a minha 4ª maratona: Porto 2012.

A preparação
Segui uma plano semelhante ao do ano passado. Ligeiramente menos km's e menos tempo: 14 em vez de 18 semanas. O plano era direccionado para a maratona de Lisboa, fazendo uma passagem pela maratona do Porto. No entanto, a duas semanas da maratona do Porto decidi abrandar o treino, fazendo ainda um bom tapering . O corpo estava a dar sinais de desgaste; tensão e inflamação na zona dos flexores da anca do lado direito, talvez acompanhada por uma outra lesão nos adutores. Tentar aguentar a mesma carga de treino durante mais 4 ou 5 semanas, com a maratona do Porto pelo meio, seria suicida.
18 semanas é melhor do que 12 ou 14. A questão é se o corpo aguenta. Da mesma forma que correr 200 kms por semana é melhor do que correr 100km ou 50km (desde que o corpo aguente).
Prioridades de treino: endurance, endurance, economia, economia, limite anaeróbio, vo2max. Quer isto dizer: 2 ou 3 treinos "longos" por semana (por exemplo, 32k,24k,18k); alguns treinos longos a ritmo de maratona (aumentando progressivamente a distância); treinos a ritmo de 15K (entre 20 e 50 minutos, aumentado progressivamente) (normalmente alterno uma semana com treino a ritmo de maratona, outra a ritmo de 15k); séries, pouca coisa (apenas 2 treinos nesta preparação), e que não devem ser feitas demasiado rápido (ritmo de 5k).
Para quem quiser saber mais, recomendo vivamente o livro "Advanced marathoning".

Para mim, o mais difícil numa preparação para a maratona é chegar à prova perfeitamente saudável. 
Estava saudável qb e numa forma semelhante à do ano passado.

Antes da prova
As duas semanas de tapering decorreram nervosamente. Gelo e a redução do volume de treino permitiram "neutralizar" a tal lesão da anca. Mas nada é garantido. Viajei de véspera para o Porto no inter-cidades (valente enjoo), pernoitando depois em casa de familiares (mais uma vez obrigado). Pequeno almoço rápido, depois de termos nos termos baralhado ligeiramente com a mudança de hora (típico), e segui para a linha de partida na companhia do Rui Pena.
Estava frio (bom), mas vento (mau). Vi logo que não ia ser fácil... mas nem consegui bem perceber onde iríamos apanhar porrada.

Tinha apenas uma directiva na minha mente: corre descontraído. 

A maratona
Tiro de partida. Acontecimento irritante: assim que comecei a correr, a banda do monitor cardíaco escorrega pelo tronco até à barriga, local onde ficará até fim da prova. Adeus frequência cardíaca. De qualquer forma, cada vez olho menos para o relógio durante as provas...
Primeiro km relativamente lento, como habitual. Muita gente e uma pequena subida até à rotunda da Boavista. Embalei então em bom ritmo, descendo em direcção ao mar. Não vejo grande pecado em deixar embalar e ganhar uns quantos segundos nesta descida, desde que não se force o andamento. Seguia com a respiração perfeitamente controlada e surpreendentemente abaixo dos 4:00/km. Não terá sido alheio a isso o vento que soprava pelas costas.
    >> 5km: 20:36 (4:07/km)

Ao longo da descida fui aproximando-me do balão das 3h. Não estava a mais de 50 metros, mas tomei a decisão consciente de não tentar alcançá-los. Correr com o grupo grande trás sempre vantagens, mas eu sabia que as três horas ainda não estavam ao meu alcance...
Assim que chegámos lá abaixo, apercebemos novamente da ventania que estava. Em frente do parque da cidade, totalmente desprotegidos, quase que dava vontade de parar de correr.
   >> 10km: 41:23 (4:08/km) - parcial 20:47 (4:09/km)

Nova zona do percurso com umas ligeiras subidas e descidas. Vento. Talvez me tenha desgastado em demasia nesta fase... 
   >> 15km: 1:03:07 (4:12/km) - parcial 21:44 (4:20/km)

Comecei a sentir alguns cansaço muscular precoce. Seguindo já na margem do rio, em direcção a leste, as condições estavam extremamente difíceis. Muito vento. Os corredores seguiam de forma dispersa, não sendo possível formar grupos de tamanho significativo. Segui próximo de outros dois ou três corredores, ora à frente, ora atrás, mas de pouco valia. Ansiava apenas por atravessar a ponte e sentir o vento pelas costas...
   >> 20km: 1:25:38 (4:16/km) - parcial 22:31 (4:30/km)

Passei à meia maratona com 1h31. Na altura fiquei até surpreendido - pensava que seria bem pior. Segue com calma; ainda vamos a meio e as pernas não estão famosas. Foi com grande alívio que cruzamos a ponte. Com o vento pelas costas tudo parece novamente mais fácil e o ritmo voltou a subir.
  >> 25km: 1:48:07 (4:19/km) - parcial 22:29 (4:29/km)

Ao contrário do que cheguei a temer, devido ao enjoo da véspera, não tive qualquer problema de estômago. 5 gels, tomados a intervalos de 8 kms (sensivelmente) - quase não os uso nos treinos, só nas provas. O nível de energia estava porreiro, nunca me senti hipoglicémico, mas as pernas (e abdómen) estavam cada vez mais tensos. 
Feito o retorno, mais vento. Os dois ou três corredores que me vinham a servir de referência seguiram e eu fiquei. Comecei a ser ultrapassado por vários corredores. Mau sinal. O ano passado por estas alturas tinha sido eu a fazer o mesmo tipo de "maldade".
  >> 30km: 2:11:17 (4:22/km) - parcial 23:10 (4:38/km)

Acabei por me juntar desesperadamente a um pequeno comboio que passou por mim e onde segui um pouco mais resguardado até à ponte. Ainda mais um pouco de sacrifício e finalmente o retorno em direcção à foz. 
Não estava nada bem, mas pouco havia a fazer. Apercebi que não precisava muito mais do que continuar a mexer-me para fazer um bom tempo. Não precisava de grandes velocidades. Apenas de um ritmo constante que conseguisse levar até ao fim.
  >> 35km: 2:34:45 (4:25/km) - parcial  23:28 (4:41/km)

Aos 39, 40 a situação agravou-se. As pernas pareciam picadinho. Numa das pequenas subidas junto à foz uma caimbra nos isquiotibiais obrigou-me a uma primeira paragem técnica. Alonguei e segui a medo. A recta parecia interminável. Já não conseguia fazer grande contas de cabeça, mas a esperança de melhorar o tempo do ano passado (3:09) começava a esfumar-se.
  >> 40km: 2:58:42 (4:28/km) - parcial 23:57 (4:47/km)

Novamente a subir. A 400 metros da meta nova caimbra, desta vez exigindo paragem mais prolongada. F%&!-se Não vou ficar aqui sentado no passeio durante meia hora, pois não? Faço isso no depois de passar a meta, está bem? Passo de caracol... Ai jesus e terminei.
   Maratona: 3:11:55

Foi um dia difícil para correr. Estou convencido que numa meteorologia mais favorável, talvez tivesse conseguido melhorar o tempo do ano passado. Quem sabe... a gestão do esforço nestas condições não é evidente, exige mais experiência. As caimbras também são um problema - falta de sódio? Apesar de não ter sido uma maratona muito bem conseguida, fiquei contente com o resultado.

A recuperação
Dois dias de dores musculares. Na quarta-feira já estava fino e retomei a corrida. Parecei até que a lesão crónica que me vinha a arreliar antes da maratona tinha desaparecido. Mas não. Ainda cá está. Não sei bem que lhe fazer. 

Até à maratona de Lisboa.